domingo, 8 de janeiro de 2017

Prémio de Pintura Elena Muriel - 2016






"Calúnia" - óleo s/ telas ( 20x20) - tríptico - 2016







                  "Calúnia" - seleccionada em 3º lugar no Prémio de Pintura Elena Muriel



“ Calúnia”

(memória descritiva)


A calúnia e a inveja estão presentes num quadro de Sandro Botticelli que tive ocasião de ver de perto no Uffizi. Recorro a ele sempre que me defronto com o que está a acontecer à Humanidade sobretudo ao universo feminino ocidental desta pequena parcela peninsular que melhor conheço.
É de sempre haver mulheres que, com inveja, caluniam outras.
É de sempre.
Não foi Sandro Botticelli que inventou isso. Mas retratou-a como um sábio, misturando o rancor e a fraude à inveja. E a inveja está a par e passo ligada à calúnia.
Também não é novidade.

Numa época em que o "salve-se quem puder" está cada vez mais a marcar as relações humanas e sobretudo as relações entre mulheres potencialmente concorrentes ou adversárias em alguma coisa que pretendem, sobretudo do mundo dos homens, estas caluniam sem dó nem piedade quem lhes faz frente, quem lhes barra o caminho, quem é mais bonita, melhor vestida e por aí adiante.
A arte não fica de fora destas querelas impiedosas e discretas.
Aos homens caberia desincentivar estas infelizes conversas maldosas, os boatos, os ciúmes doentios, a má-fé e a maldade, já que eles se dizem mais racionais e por isso mais capazes de discernir nos momentos mais complicados da vida das mulheres.
O que se vem assistindo é que eles estão também cheios dos mesmos males e não resistem a uma "conversinha" de cinismo magoado.
As mulheres, que foram sendo mais vítimas sociais do que os homens, entendo eu que se quisessem servir de todos os estratagemas para melhor conseguirem resultados.
Que pena que a humanidade não aprenda nada à medida que os séculos passam e a tecnologia avança. Que pena!
Lá terei eu e outros e outras como eu, que voltar a chamar a atenção de que algo de errado está a acontecer no mundo das relações humanas mais próximas, quase diria de dentro da nossa casa.
Olga Barbosa 
2016


Tríptico batentes - óleo s/ tela - 2015








BATENTES    

                                                    
Antes das campainhas elétricas
Cujo som é sempre o mesmo
Seja amigo ou inimigo aquele que pressiona o botão
Havia nas portas das casas
Um batente

Pela forma de bater
Já se podia adivinhar de dentro
Quem era àquela hora

Assim
Os inibidos batiam de tal forma
Que raramente se ouvia

E também havia os surdos
Que de dentro
Nunca queriam ouvir

Há batentes gastos
Repetidas vezes usados

Pela manhã
Os vendedores
Os cobradores
Os indesejáveis

À tarde, quem sabe?
Alguém conhecido
Um familiar, um amigo

À noite
Ai de quem ousasse!

Desejo de ver um rosto amigo
Uma porta que se abre
A privacidade compartilhada

Mas há também
Os batentes pouco usados
Pendurados em portas que nunca se abrem
Dos ausentes
Dos que permanecem no silêncio
                                                                      Olga Barbosa 



terça-feira, 18 de agosto de 2015